Ciência

Bebedeira na adolescência deixa marcas no cérebro até a vida adulta

Pesquisa da Unifesp com camundongos indica que intoxicações precoces por álcool elevam o comportamento de risco e o consumo da bebida anos depois

Administrador · 23/09/2026

Bebedeira na adolescência deixa marcas no cérebro até a vida adulta

Agência FAPESP

Beber muito e de uma vez só na adolescência cobra a conta bem depois. É o que aponta um estudo da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, feito com camundongos e apoiado pela FAPESP, que acompanhou os animais até a fase adulta e encontrou mais disposição para se arriscar e mais vontade de beber.

A pesquisa foi coordenada pela professora Karina Possa Abrahão, do Departamento de Fisiologia, e virou dois artigos científicos, publicados nas revistas Alcohol Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.

O ponto de partida é a imaturidade do cérebro nessa idade. O córtex pré-frontal, região encarregada de segurar impulsos e pesar decisões, é dos últimos a ficar pronto, por volta dos 25 anos em humanos. Até lá, ele está mais exposto ao efeito da substância.

Para reproduzir o padrão de consumo em laboratório, cada animal recebeu quatro injeções de álcool durante a própria adolescência, que nesses roedores vai do desmame até cerca de 60 dias de vida. A dose foi calculada em proporção ao tempo de vida do camundongo e equivale, em uma pessoa, a algo perto de duas intoxicações fortes por mês ao longo de toda a adolescência.

O resultado mudou conforme o momento da exposição. Quando o álcool chegou no começo da adolescência, só os machos ficaram mais propensos ao risco na vida adulta, enquanto as fêmeas passaram a beber mais quando a bebida foi oferecida depois. Já a intoxicação no fim da adolescência atingiu os dois sexos, o que derrubou a hipótese inicial do grupo, de que a maturação mais precoce do cérebro das fêmeas as protegeria.

Para a pesquisadora, o efeito é o de travar o amadurecimento: o indivíduo segue se expondo ao perigo como se nunca tivesse saído da adolescência, comportamento esperado aos 15 anos e problemático aos 30. Em adultos mais velhos, segundo ela, o prejuízo continua existindo, mas é bem menor. As informações são da Agência FAPESP.