Ciência

Pesquisadores registram contato facial inédito entre uacaris-de-cabeça-branca

Observação na Amazônia pode ser o primeiro registro de um contato direto entre as faces de indivíduos selvagens da espécie.

Bot Noticias · 27/09/2026

Pesquisadores registram contato facial inédito entre uacaris-de-cabeça-branca

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O contato entre os lábios não é exclusivo dos seres humanos. Chimpanzés, bonobos e orangotangos já foram observados em comportamentos desse tipo. É provável que o hábito tenha sido herdado de um ancestral comum dos primatas, há cerca de 21 milhões de anos.

Registros semelhantes são raros entre os primatas neotropicais, conhecidos também como macacos do Novo Mundo, que vivem nas florestas tropicais da América Central e da América do Sul. Por isso, a observação de uacaris-de-cabeça-branca selvagens chamou a atenção dos pesquisadores.

Em 18 de abril de 2023, às 16h28, um macho adulto aproximou-se de uma fêmea adulta que descansava em um galho nas camadas superiores da floresta amazônica. O macho se ergueu sobre as patas traseiras, posicionou-se diante da fêmea e aproximou o rosto até que os dois se tocassem.

Durante cerca de dez segundos, os animais permaneceram com os focinhos encostados enquanto eram observados pelos pesquisadores. A fêmea ficou sentada, de frente para o macho, em uma postura descrita pelos autores como relaxada e compatível com receptividade.

O artigo relata que as bocas dos dois indivíduos pareciam se tocar, com os focinhos alinhados frente a frente. Os pesquisadores não observaram tensão muscular, agressividade ou sinais de estresse. Por isso, descreveram a cena como um possível "beijinho".

O contato pareceu suave e contínuo. Depois, o macho caminhou para o interior da copa da árvore, e a fêmea o seguiu. A interação completa, desde a aproximação até o desaparecimento dos dois entre as copas, durou aproximadamente um minuto.

Publicado no início do mês na revista Biotropica, o estudo afirma que essa é a primeira observação de contato facial direto entre uacaris-de-cabeça-branca selvagens, primatas da família Pitheciidae.

Renann Dias da Silva, pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e primeiro autor do estudo, contou que não entendeu imediatamente o que ocorria. Durante a expedição, ele ficou encantado com a cena e continuou as observações. Só depois, de volta, consultou a literatura científica sobre o comportamento.

Entre os primatas, contatos faciais podem ajudar a manter vínculos de casal, resolver conflitos, avaliar parceiros para reprodução e solicitar cópula. O uacari-de-cabeça-branca é endêmico das várzeas da Amazônia e tem características que tornam esse tipo de comportamento especialmente relevante para a pesquisa.

As faces avermelhadas dos animais são muito vascularizadas e emitem odores. Segundo os pesquisadores, esses sinais podem indicar o estado de saúde e ajudar as fêmeas a escolher um parceiro. "Ela quer um macho saudável e consegue ver isso no rosto deles, porque, quanto mais avermelhada a face, mais saudável está o animal", explicou Silva.

Os pesquisadores também observaram um macho adulto aproximar-se de um indivíduo jovem pousado em um galho. O adulto inclinou-se em direção à face do jovem por cerca de três ou quatro segundos. Como não houve violência, os autores levantaram a hipótese de que o contato servisse para reconhecimento.

"Ao longo do dia, para evitar competição entre o próprio grupo, uacaris se dividem em grupos menores. Mas, em outros momentos, eles voltam a se juntar", disse Silva. Segundo ele, o contato facial próximo pode ajudar na identificação, na apaziguação e na coesão do grupo.

Silva observou uacaris-de-cabeça-branca selvagens de setembro de 2022 a agosto de 2023. Ele trabalhou na Reserva Biológica do Lago Surara, na região do rio Juruá, no Amazonas. As observações descritas ocorreram durante o período de cheia, quando o solo fica submerso e os animais permanecem mais restritos ao topo das árvores.

Como foram registradas apenas duas ocorrências, os pesquisadores não podem afirmar que a época do ano tenha causado o comportamento. A maior proximidade entre os indivíduos durante a cheia, no entanto, pode ter contribuído para os contatos observados.