Ciência

Como o padre italiano Giovanni Gallo criou o Museu do Marajó

Fundado a partir de peças encontradas pela população, o museu reúne vestígios arqueológicos e registros da vida no arquipélago paraense.

Bot Noticias · 27/09/2026

Como o padre italiano Giovanni Gallo criou o Museu do Marajó

Superinteressante

Cerca de 590 mil pessoas vivem no arquipélago do Marajó, no norte do Pará. A região é conhecida no Brasil pela criação de búfalos, cujo número chega a 460 mil. Os animais são encontrados em cidades, áreas rurais, rios e lagos, e também atraem turistas.

Nos anos 1970, o italiano Giovanni Gallo chegou ao Marajó interessado nas pessoas que viviam no arquipélago. O padre, conhecido como padre Gallo, nasceu em Turim em 1927, entrou para a Companhia de Jesus e participou de projetos sociais na Sardenha e na Suíça.

Enviado ao Brasil em 1970, ele trabalhou na Bahia e no Maranhão antes de se mudar para o Marajó. Gallo dizia que a região era o lugar para onde nenhum padre queria ir. Ele se estabeleceu em Santa Cruz do Arari, cidade às margens de um rio onde predominam casas sobre palafitas.

Além de celebrar missas, Gallo passou a viver de perto a rotina dos caboclos marajoaras. Aprendeu a pescar, a se comunicar com a comunidade e estudou crenças e superstições locais. Também conheceu o ciclo de chuvas, cheias e secas que chamou de "ditadura das águas". Metade do ano era marcada pelas chuvas e cheias dos rios; a outra metade, pela seca.

O padre também se interessou pela história arqueológica da ilha. Sociedades indígenas complexas viveram no arquipélago antes da chegada dos portugueses, em 1500. Há evidências de manejo da terra, construção de lagos artificiais, rituais funerários e de fertilidade e divisão social do trabalho entre aproximadamente os anos 800 e 1300.

Como esses povos não deixaram registros escritos, pesquisadores estudam as cerâmicas encontradas sob o solo do Marajó. Em certa ocasião, um amigo entregou a Gallo um pacote com fragmentos de cerâmica decorada. Esse material foi o início do acervo que daria origem ao Museu do Marajó.

Em algumas áreas do arquipélago, o desgaste do solo traz peças arqueológicas à superfície. Moradores encontravam cacos de cerâmica em quintais e propriedades e passaram a entregar ao padre objetos que consideravam extraordinários. O acervo recebeu peças de cerâmica, fósseis e até um bezerro de duas cabeças nascido na região. Mulheres da comunidade embalsamaram o bezerro depois de aprender técnicas de taxidermia com Gallo.

O primeiro museu foi chamado de O Nosso Museu de Santa Cruz do Arari e inaugurado oficialmente em 1977, no dia do Círio de Nazaré. A proposta era criar um espaço feito pela população e destinado à própria população, com foco na cultura local.

Gallo se tornou mais popular na cidade do que muitos políticos, segundo os relatos reunidos na reportagem. O prefeito chegou a suspeitar que ele pudesse se candidatar a um cargo público. O padre passou a receber ameaças e relatou em um livro que teve uma arma apontada para ele.

O padre também teve conflitos ideológicos com o bispo da época, que decidiu retirá-lo do Marajó. Para continuar no Pará, Gallo rompeu com a Igreja Católica e deixou de usar a batina. Depois, transferiu o museu e o acervo para Cachoeira do Arari, município vizinho, onde o espaço permanece.

"Ele percebeu que a comunidade não tinha noção do quão rica era a sua cultura", disse Maria José, conhecida como Dona Zezé, moradora do Marajó que trabalhou com Gallo. Segundo ela, o padre ajudou os moradores a reconhecer o valor de seus costumes.

Zezé, que é cozinheira e mantém o restaurante Quintal da Zezé em frente ao museu, contou que moradores organizaram mutirões para reformar uma antiga fábrica de Cachoeira do Arari. O prédio foi limpo e restaurado pela comunidade, e o Museu do Marajó foi inaugurado ali em 1987.

Na cerimônia, Gallo disse que o museu deveria funcionar como um polo de desenvolvimento para ajudar Cachoeira do Arari a obter estruturas que outros municípios já tinham. O espaço não reunia apenas peças arqueológicas e fósseis, mas também objetos e informações sobre crenças, culinária, vestimentas e hábitos dos marajoaras.

"Apesar de ter começado com os fragmentos arqueológicos, ele dizia que a principal peça do museu era o homem marajoara", afirmou Zezé. Segundo ela, Gallo acompanhava vaqueiros e pescadores para conhecer a rotina deles e registrá-la no museu.

Entre os itens do acervo estavam os chamados "computadores caipiras", estruturas de madeira que podiam ser tocadas e abertas pelos visitantes para revelar informações. Em entrevista ao Globo Repórter em 1996, Gallo disse que o brasileiro precisava interagir com os objetos. A reportagem chamou o Museu do Marajó de "primeiro museu caboclo do mundo".

As peças arqueológicas exibem grafismos produzidos pelos povos que viveram no Marajó centenas de anos atrás. Gallo publicou o livro Motivos ornamentais da cerâmica marajoara, no qual explica os desenhos e apresenta gráficos de ponto cruz para reproduzi-los em bordados.

Segundo Zezé, o padre pensou no livro como uma forma de trabalho para mulheres que dependiam financeiramente dos maridos. Gallo criou um grupo de bordadeiras cadastradas no museu, fornecia o material e pagava pelo serviço realizado em casa. Depois, as roupas bordadas eram vendidas.

Gallo se preocupava com a continuidade do museu depois de sua morte. Ele morreu em 7 de março de 2003, aos 76 anos, em decorrência de infecções causadas por uma úlcera perfurada. O padre faleceu no Hospital Porto Dias, em Belém, e foi sepultado no quintal do Museu do Marajó, em Cachoeira do Arari.

Após a morte de Gallo, a Associação do Museu do Marajó, formada por moradores de Cachoeira do Arari, assumiu a administração do patrimônio. A comunidade manteve o museu aberto com ajuda da prefeitura para pagar a conta de luz.

Com o tempo, o prédio precisou de reparos que a associação não tinha recursos para fazer. Zezé afirma que pediu várias vezes recursos ao governo do estado para reformar o museu, mas recebeu respostas negativas. Depois do incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018, o Ministério Público solicitou uma vistoria do Corpo de Bombeiros no Museu do Marajó.

O incêndio do Museu Nacional destruiu 18,5 milhões de peças do acervo. O laudo, recebido em 12 de dezembro, data do aniversário do museu, informou que o prédio não estava apto a funcionar. O documento apontou problemas no telhado, rachaduras, infestação de cupins e um sistema de prevenção de incêndios praticamente inexistente. O museu foi fechado para as adaptações.

O promotor responsável solicitou uma audiência pública com o governador do Pará, Helder Barbalho. Depois de visitar o museu, o governador assinou um termo de compromisso para a reforma, e o espaço passou à tutela da Secretaria de Cultura do Pará.

Após quatro anos fechado, o museu reabriu em 2022. A exposição voltou a apresentar peças arqueológicas e alguns dos computadores caipiras, mas parte do acervo permanece em uma reserva técnica na casa vizinha, pertencente à associação. As adequações solicitadas pelo Corpo de Bombeiros reduziram o espaço disponível para exibição.

O acesso também é um desafio. Muitos visitantes ficam em Soure ou Salvaterra, municípios mais próximos de Belém. De Salvaterra até o museu, o trajeto por estrada é interrompido pelo rio Camará, que tem cerca de 100 metros de largura. Como não há ponte, é preciso usar uma balsa, e a espera pode chegar a uma hora. A licitação para construir uma ponte foi aprovada pelo governo estadual em 2022, mas a obra ainda não havia sido construída.