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Crédito dá impulso a reflorestamento, mas cadeia ainda enfrenta gargalos

A atividade de restauração florestal está apresentando sinais de crescimento no Brasil, com o aumento de demanda por mudas, mais operações de financiamentos e vendas relevantes de créditos de remoção de carbono. No entanto, o setor ainda enfrenta gargalos, como a falta de coordenação na cadeia produ

Bot Noticias · 28/09/2026

Crédito dá impulso a reflorestamento, mas cadeia ainda enfrenta gargalos

Globo Rural

A atividade de restauração florestal está apresentando sinais de crescimento no Brasil, com o aumento de demanda por mudas, mais operações de financiamentos e vendas relevantes de créditos de remoção de carbono. No entanto, o setor ainda enfrenta gargalos, como a falta de coordenação na cadeia produtiva, dificuldades de acesso ao crédito e pouco conhecimento formal.

Em pouco mais de dois anos, o BNDES já permitiu a movimentação de R$ 14,6 bilhões em recursos para a área, seja em operações de financiamento como em aportes em fundos de investimento de reflorestamento. Os recursos estão criando um ecossistema de apoio ao setor, com reprodução de viveiros e formação de mão de obra, disse Tereza Campello, diretora socioambiental do banco de fomento, em entrevista à reportagem.

O desafio não é pequeno, já que o Brasil tem apenas pouco mais de três anos para cumprir com sua meta de restaurar 12 milhões de hectares, caso queira cumprir com seus compromissos estabelecidos na Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC). De acordo com dados mais recentes compilados pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, desde 2015 até novembro de 2025 as atividades de restauro haviam alcançado 204 mil hectares.

Os dados reforçam, por outro lado, o potencial de crescimento da atividade. “O banco encara como um novo setor econômico. Será um setor de ponta no Brasil, em que o país tem vantagens disparadas”, afirmou Campello. Além de atender a meta nacional, o setor poderá ser um importante fornecedor de ativos econômicos ao mundo. “Tem uma demanda muito grande no mundo tanto por crédito de carbono de restauro, principalmente de florestas nativas, como de madeira certificada. E futuramente terá [demanda] por crédito de biodiversidade”, acrescentou.

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Do total que o BNDES movimentou no setor até agora, R$ 8,9 bilhões foram em financiamentos com recursos do Fundo Clima, do Fundo Amazônia e recursos próprios do banco, que devem viabilizar o reflorestamento de 212 mil hectares e a captura de 68 milhões de toneladas de carbono da atmosfera. Os demais R$ 5,9 bilhões estão sendo empenhados conjuntamente com fundo privados, sendo R$ 1,3 bilhão em capital catalítico do banco.

A expectativa do BNDES é tornar o setor de restauração florestal com nativas uma indústria tão relevante como a de papel e celulose e outras em que o Brasil se destaca, disse Campello. Segundo ela, alguns gargalos já estão sendo resolvidos, como da oferta de mudas. “Hoje é possível construir um viveiro rapidamente”, disse.

Os viveiristas já percebem um aumento da demanda nos últimos anos, mas ressaltam que ainda há muitos gargalos. A Fazenda Anauá, em Caravelas (BA), dobrou sua capacidade produtiva de mudas no ano passado ao identificar esse movimento. “Foi reflexo do que está acontecendo nacionalmente e globalmente”, disse o biólogo Hudson Freire Laviola Filho, responsável pela fazenda.

“Neste ano recebemos uma demanda fora do comum. Como está chovendo desde o outono, os plantios continuaram acontecendo”, disse Rodrigo Ciriello, presidente da Nativas Brasil, associação criada há cinco anos para representar os viveiristas, e que está com 150 associados. Segundo ele, há regiões em que começou a faltar muda.

No entanto, os desafios ainda são grandes e o segmento ainda está “engatinhando”, avaliou. Segundo ele, falta coordenação até para programar as encomendas de mudas. “Os grandes projetos deixam para comprar muda só quando começa a chover. Mas o viveiro tem que começar a produzir em janeiro”, disse.

Mesmo com aumento de demanda nos últimos anos, os viveiros no Brasil vinham trabalham com ociosidade de 50%, segundo levantamento da Nativas Brasil no ano passado. E, das 50% de mudas produzidas dentro da capacidade, há viveiros que não vendem 30%, por descasamento com a demanda. “Ou o viveiro joga fora ou tem que arrumar o que fazer com elas.”

A falta de acesso ao crédito também dificulta a preparação dos viveiros para eventual aumento de demanda. “A produção de mudas exige mobilização de capital grande no começo. Tem que comprar substrato, adubo, tubetes, tem a mão de obra, energia elétrica, alguns pagam água. E o acesso ao recurso pelo Plano Safra ou a linhas de crédito tradicionalmente oferecidas ao agro é mais difícil para o viveirista. Ele tem medo de pegar crédito e depois não conseguir vender muda”, explicou.

Segundo Ciriello, mesmo com algumas linhas acessíveis aos viveiros, falta conhecimento tanto entre as empresas quanto até entre gerentes de banco sobre as opções de crédito disponíveis.

A complexidade da atividade de restauro de árvores nativas também exige mais planejamento na cadeia. “A gente não trabalha com clonagem, mas entrando na floresta, coletando sementes e transformando em mudas. Não é algo repetitivo e industrial. Tem ano que não chove, tem ano em que o jequitibá não dá fruto. É preciso planejamento”, disse.

Atualmente, os viveiros de mudas nativas do país têm capacidade de entregar 300 milhões de unidades ao ano. Para que o setor de restauro florestal atenda pelo menos 30% da necessidade da meta de reflorestamento prevista na NDC, os viveiros teriam que ter uma capacidade de entregar 1,25 bilhão de mudas ao ano, segundo a associação. “Estamos longe de conseguir bater a meta”, disse Ciriello.