Política
Histórico de Amélio reforça risco de instabilidade em eventual governo de Vicentinho
Depois de identificar inquérito da PF ainda aberto sobre Vicentinho, reportagem analisou candidatos a vice e encontrou em Amélio o histórico mais extenso, com Fames-19, ações de improbidade e irregularidade na Codap admitida pelo gabinete
Administrador · 17/09/2026
Depois de analisar o histórico judicial dos principais candidatos ao governo do Tocantins, a reportagem estendeu o levantamento aos candidatos a vice. No caso de Amélio Cayres (MDB), vice de Vicentinho Júnior (PSDB), foram encontradas investigações, ações judiciais e controvérsias administrativas que acrescentam uma segunda frente de questões jurídicas à chapa, já que Vicentinho permanece relacionado a um inquérito da Operação Overclean.
Ex-prefeito de Esperantina, deputado estadual no quinto mandato consecutivo e presidente da Assembleia Legislativa, Amélio não possui condenação criminal definitiva localizada pelo levantamento. Seu histórico, porém, inclui busca e apreensão no âmbito da Operação Fames-19, suspeitas patrimoniais levantadas pela Polícia Federal, ação de improbidade com bloqueio cautelar de bens e irregularidade no uso da cota parlamentar reconhecida pelo próprio gabinete.
A Fames-19 apura suspeitas de desvios em contratos de cestas básicas e frango congelado durante a pandemia. Amélio foi alvo de buscas em sua residência e no gabinete na Assembleia. Durante a operação, foram encontrados R$ 25 mil em espécie dentro de um veículo oficial utilizado por Raul Cayres, filho do deputado, que não era servidor da Casa. Raul declarou que o dinheiro era dele e que utilizava o automóvel para fins particulares.
Documentos apreendidos sobre imóveis registrados em nome de familiares e terceiros também levaram a PF a levantar a hipótese de ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro por interpostas pessoas. Trata-se de uma linha de investigação, sem conclusão judicial contra Amélio. Até agosto, não havia condenação do parlamentar na Fames-19.
Amélio também se tornou réu em ação de improbidade relacionada ao Instituto Prosperar. O Ministério Público questionou cerca de R$ 600 mil em emendas indicadas pelo deputado entre 2016 e 2017 e apontou supostas irregularidades em contratações de shows. A Justiça determinou bloqueio cautelar de R$ 297,6 mil envolvendo Amélio e outros réus. A defesa sustentou que ele indicava as emendas, mas não era responsável pela execução dos recursos. Não foi localizada condenação definitiva no processo.
Conforme revelado pelo Jornal Opção Tocantins, entre janeiro e abril de 2025, o gabinete de Amélio recebeu R$ 181,2 mil em ressarcimentos pela Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Codap). Desse período, cerca de R$ 15 mil em combustíveis foram pagos ao Posto Augustinópolis, que tinha entre seus sócios Armando Cayres de Almeida, irmão do deputado.
A norma da Assembleia proíbe ressarcimentos de despesas em empresas que tenham entre seus sócios parentes do parlamentar até o terceiro grau. Questionado pela reportagem, o gabinete reconheceu o descumprimento da regra, afirmou que os abastecimentos ocorreram e informou que deixou de utilizar o estabelecimento depois da identificação da irregularidade.
Já como presidente da Assembleia, Amélio tornou-se réu em ação popular que questiona a prorrogação do contrato de vigilância da Casa com a Jorima Segurança Privada. O aditivo de R$ 4,34 milhões foi assinado por ele em 5 de novembro de 2025 e prorrogou a contratação até novembro de 2026.
A Justiça negou a liminar que pretendia suspender o contrato, mas manteve o processo contra Amélio e os demais requeridos. A Assembleia foi excluída do polo passivo, com a determinação de inclusão do estado do Tocantins, enquanto a ação prosseguiu contra os outros réus.
O levantamento sobre os candidatos a vice completa a análise feita anteriormente pela reportagem com os nomes que disputam o governo. Na primeira pesquisa, Vicentinho apareceu relacionado a um inquérito ainda aberto da Operação Overclean. Agora, a análise dos vices mostra que, na chapa de Vicentinho, as questões jurídicas não terminam no candidato ao Palácio Araguaia: chegam também a quem seria seu substituto imediato.
Amélio seria o primeiro na linha de sucessão de um eventual governo Vicentinho. Caberia a ele assumir o comando do estado em caso de afastamento, impedimento ou ausência do governador. O candidato a vice, por sua vez, chega à disputa depois de ter sido alvo da PF na Fames-19, além de figurar como réu em ações judiciais e ter no gabinete uma irregularidade com verba parlamentar já reconhecida.
A chapa concentra, portanto, questões jurídicas nos dois nomes que ocupariam o topo do executivo. De um lado, Vicentinho permanece relacionado ao inquérito da Overclean. Do outro, Amélio tem um histórico que inclui investigação federal, ações judiciais e controvérsia administrativa. A situação do vice passa a ser relevante justamente porque ele seria o responsável constitucional pela continuidade do governo caso o titular deixasse temporária ou definitivamente o cargo.
O Tocantins já passou por mudanças no comando do Palácio Araguaia provocadas por decisões judiciais envolvendo governadores. Em um eventual governo Vicentinho, a estabilidade institucional estaria ligada não apenas à situação jurídica do titular, mas também à de Amélio, o nome escolhido para assumir o estado caso o governador não pudesse permanecer no cargo.